2009-11-06 11:31
Revisão 05/05/2012
Nos últimos tempos, a televisão tem sentado no banco dos réus como a principal
suspeita pelas inversões de valores, violência e descalabros sociais.
Defensores afiados em suas críticas contra os programas televisivos têm
anunciado a presença de uma sociedade acéfala, incapaz de refletir e analisar
os programas assistidos, aceitando compassivamente todas as ideias propostas
por esse instrumento de comunicação. A mesma crítica é feita sobre o uso
da internet, hoje, o meio de comunicação mais usado por nossa sociedade.
Credita-se à esse instrumento a possibilidade de bestializar os usuários que
buscam apenas futilidades, inversões de valores e fim da criticidade.
Os brados são muitos e chegam a propor, de forma saudosista, programas antigos
que não exponham e não deturpam a moralidade. Gritam os moralistas que os
adolescentes são as principais vítimas, pois são os mais suscetíveis a essa
ameaça. Dizem também, que a camada popular, porque ignorante e não dotadas de
senso crítico, são vítimas dos interesses megalômanos e capitalistas das
grandes corporações e empresas capitaneadas pelas classes ricas. Procuram, por
meio desses argumentos, a censura de programas e meios de comunicação que
expõem a comunidade aos pensamentos "inadequados" que reproduzem.
Mas até que ponto tudo
isso é correto? Por que atribuir à televisão a culpa por todas as mazelas
sociais? Por que dizer que o acesso democrático da internet pode ser
considerado empecilho ao desenvolvimento intelectual e crítico do indivíduo?
Então, a educação, a moralidade, a ética e os valores em geral foram
transformados pelos programas de televisão? Eles têm tanto poder assim? E por
que não fazer uma análise mais profunda e compreender se os pressupostos
elencados acima são realmente validados?
Essa discussão com toda
certeza daria muitos elementos e, por isso, seria demasiadamente longa. No
entanto há como discutir, refutar ou aceitar certos pressupostos. Não devemos
delegar à televisão e à todo sistema de comunicação e informação toda a
dificuldade e problemática presente em nossa sociedade. Não devemos creditar o
sucesso da televisão, a propagação e democratização do acesso à internet e a
situação social, econômica e cultural de uma camada populacional à ignorância e
falta de senso crítico. Não devemos generalizar e indicar que todos os
programas televisivos são de mau gosto e, por fim, mesmo aceitando que a
televisão traz certos malefícios aos adolescentes, ela também é (e poderá ser)
um grande instrumento de educação, cultura e lazer. De mesmo modo, a internet é
a possibilidade de trazer mais acesso e poder de intervenção dos indivíduos em
sua comunidade.
A televisão e o
computador são instrumentos e, como todo instrumento, seus efeitos serão
de acordo com o uso que se faz deles. Se abandonarmos o pensamento mítico e
usarmos de nossa criticidade, poderemos "despersonificar" o aparelho
“televisão” e atribuir aos verdadeiros culpados às transformações que
vivenciamos. Somos nós que devemos cobrar qualidade e, quando não há, somos nós
que devemos nos negar a participar. Agora, participamos quando reconhecemos que
algo faz sentido e parte de nossa vida. Oras, se encontramos audiência para a
banalidade, será que a banalidade não está presente em nossa vida e fazendo
sentido? Será que a televisão não vem apenas refletir o que já está presente em nós. Será que o grande
número de brasileiros usando Facebook ou Orkut, escrevendo e
"curtindo" certos conteúdos não reflete o que somos enquanto
consumidores? A dimensão criativa da televisão não é tão grande a ponto de
transformar toda a sociedade num sopro só. Seria até mítico dá ao instrumento
inanimado e/ou controlado por nós o poder de perverter a sociedade. Senão,
seria muito fácil "consertar". Então exibiríamos sempre um programa
considerado de "qualidade" e a sociedade tornaria uma sociedade de
"qualidade". Acredito que os tempos de censura tentaram e não
lograram. Mas não é bem assim que funciona. Há muito elemento envolvido. É
apropriando-se adequadamente de um instrumento que teremos respostas adequadas.
E os adjetivos "adequados" e "qualidade" são muito pessoal,
subjetivo que não me atrevo a determinar padrões. O que para mim é qualidade,
para outros, não.
Se somos críticos a
ponto de reconhecer a baixa qualidade, a violência e as inversões de valores em
determinados programas televisivos, devemos ser críticos o bastante para
reconhecer que muitos programas trazem neles uma consciência coletiva do que
somos, de como estamos e para onde vamos. Se realmente estamos preocupados com
as qualidades discursivas dos jovens nas redes sociais, devemos, também,
reconhecer que esse meio de comunicação possibilita, por outro lado, a
interação educacional da sociedade. O que não é surpresa para todos ao perceber
o avanço dos cursos EAD. O que isso indica? Que diante desses programas e
possibilidades comunicativas possuímos vários e sérios instrumentos reflexivos
sobre a nossa realidade.
Agora, seria de um mau
gosto e acrítico culpabilizar a camada popular pelo sucesso dos programas de
"baixa qualidade" devido à "ignorância" e falta de
"cultura" ou pelo Brasil já ser o segundo país em uso da internet e
redes sociais. Quem, ainda hoje, usa esses adjetivos para indicar uma
determinada classe ou povo, tem muito que aprender e conhecer melhor esse mesmo
povo. Não podemos aceitar esse discurso reducionista e generalizado, pois quem
carrega esse discurso tem pouca vivência e desconhece a sabedoria popular e as
habilidades forjadas na vida de um ser humano. Como ser humano, não devemos
repudiar ou excluir outro ser humano, diferenciando pelo poder
intelectual, pelo grau de erudição ou escolarização. Esse artifício é o mesmo
usado para encontrar, (não sei se é o termo adequado) uma raça perfeita. Como
crítico, defensor da ética humana, não aceito ouvir um falar tão preconceituoso
e cheios de maus ditos.
Se nossa sociedade não
caminha bem, se não temos mais respeito um pelo outro, se nossa cultura decaiu
e nossa moralidade extinta, se nossos filhos não sabem mais respeitar os
valores que tanto preservamos e se a nossa vida anda muito complicada, não é
culpabilizando a televisão que teremos uma resposta. Não é delegando aos jovens
facebookers a culpa do retrocesso intelectual de uma sociedade. Não teremos
meios de compreender enquanto usarmos do artifício da culpabilização. Porque
culpando alguém, tira-nos a responsabilidade de se envolver e de, junto, buscar
uma solução. Porque culpando alguém ou alguma coisa, podemos, temporariamente,
dizer-nos que estamos livres da responsabilidade dos efeitos que a sociedade
nos apresenta. E isso não é ser crítico e sim comodista. Não é ser sábio e sim
traidor.
PROFESSOR
VALDIR DOS
SANTOS LOPES

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